O ballet que dançou às vésperas de uma revolução | A história da La Fille Mal Gardée

Preciso começar já confessando que La Fille Mal Gardée é um dos meus ballets preferidos. Eu amo ballets camponeses e esse, em especial, tem toda diferença por ser mais leve e divertido!

Mas existe um detalhe sobre La Fille Mal Gardée que eu não consigo deixar passar batido e que é de extrema importância para quem gosta de entender os bastidores das criações (assim como eu rs): ele estreou em 1º de julho de 1789. Treze dias depois, a Bastilha caía e a França mudava para sempre.

Se foi coincidência? Talvez.
Mas quando olhamos pra história que esse ballet conta, é difícil não ver ali um sinal dos tempos 💡

Um amor entre uma “burguesa” e um camponês

A trama é simples, mas eu acho importante a gente entender bem ela antes de ir pros bastidores: Lise, filha única de uma viúva fazendeira chamada Simone, está apaixonada por Colas, um camponês pobre. O problema é que Simone tem planos mais ambiciosos pra filha – ela quer Lise casada com Alain, filho de Thomas, um fazendeiro rico. Então temos esse triângulo clássico entre amor verdadeiro e ascensão social, que se resolve só no segundo ato, quando Simone (depois de muita resistência) cede e abençoa Lise e Colas.

Conta simples, né? Mas pensa comigo no contexto: até aquele momento, as histórias traziam deuses, heróis e figuras mitológicas – pessoas extraordinárias, vivendo dramas grandiosos. La Fille foi um dos primeiros a colocar gente comum, do campo, vivendo um amor comum, no centro do palco. E fazer isso bem na semana em que a burguesia francesa estava prestes a derrubar a aristocracia não é pouca coisa: é literalmente a arte refletindo o que estava em ebulição na sociedade.

Esse é um dos motivos pelos quais ele é considerado um marco – o ballet de repertório mais antigo ainda em cena hoje, e também um dos primeiros em que o público burguês podia se ver representado no palco, e não só a nobreza.

Vale dizer também que por isso ele é classificado como um ballet pré-romântico, e não romântico – diferente do que vai acontecer depois com La Sylphide, aqui não tem mulher etérea, amor impossível ou criatura mística. É um casal comum, com um problema bem terreno (dinheiro e status).

O aluno que superou o conceito do mestre

Quem criou essa história foi Jean Dauberval, e pra entender por que esse ballet é tão especial, precisamos relembrar e entender quem foi seu professor: Jean-Georges Noverre, chamado até hoje de “pai do ballet moderno” – nome tão importante que a UNESCO escolheu o aniversário dele, 29 de abril, como o Dia Internacional da Dança.

Noverre tinha uma crítica forte aos ballets da sua época: achava que máscaras, perucas e figurinos pesados engessavam a dança e impediam que ela contasse qualquer coisa de verdade. Em seu livro Lettres sur la danse et sur les ballets (1760), ele propôs o conceito de Ballet d’Action – a ideia de que a dança, a música e a pantomima, juntas, conseguiam contar uma história completa e emocionar o público sem depender de texto falado ou da ópera.

Dauberval levou esse conceito ao pé da letra. Em vez de deuses e heróis, escolheu contar a história de camponeses apaixonados, com humor, leveza e pantomima em praticamente todas as cenas. E um detalhe curioso: a música que ele usou na estreia nem foi composta especialmente pro ballet – ele pegou melodias populares francesas já conhecidas do público e mandou organizá-las pra cena. Isso tinha até nome técnico na época: pastiche (ou vaudeville). O mestre de ballet escolhia as canções, o músico do teatro só arranjava.

La Fille também tem uma referência baseada num quadro chamado “Le réprimande” de Pierre Antoine Baudouin, que mostra uma jovem sendo repreendida por sua mãe por não fazer suas tarefas domésticas, sem saber que o namorado estava escondido nas escadas. Jean Dauberval criou o libreto do ballet justamente inspirado nesta cena.

Duas tradições, dois jeitos de contar a mesma história

A questão é que essa música original do pastiche praticamente se perdeu com o tempo — assim como boa parte da coreografia de Daubervalrs. E é aí que a história de La Fille fica interessante: ao longo de quase 250 anos, o ballet foi ganhando novas partituras (primeiro com Ferdinand Hérold, em 1828, depois com Peter Ludwig Hertel, em 1864, na Alemanha) e, com elas, novas coreografias.

Hoje, na prática, sobrevivem duas grandes linhagens que você vai encontrar em cartaz ou em vídeo:

  • A versão de Frederick Ashton (Royal Ballet, 1960): usa a partitura de Hérold rearranjada por John Lanchbery, tem atmosfera leve e pastoral, e carrega marcas bem britânicas como o refinamento do épaulement, o trabalho rápido de pés (petit allegro) e um gosto especial por adereços teatrais (fitas, tamancos, guarda-chuva). É a versão completa mais montada por companhias e escolas hoje.
  • A tradição russa, que vem da música de Hertel incorporada pelas montagens de Petipa e Gorsky: mais técnica e virtuosa, com saltos, giros e baterias bem marcados.

Três momentos que valem a curiosidade

Se você for assistir (ou já assistiu e quer entender melhor o que viu), eu gosto sempre de ressaltar três cenas que carregam um simbolismo bonito e que, pra mim, deixam esse ballet mais especial:

O pas de deux das fitas

Marianela Nuñez como Lise e Carlos Acosta como Colas em La Fille mal gardée © Bill Cooper

Logo no primeiro ato, Lise e Colas usam uma longa fita de cetim rosa como extensão física do que sentem um pelo outro. A fita serve pra amarrar o casal em abraços e é trançada até formar uma espécie de carrossel (uma “gaiola de amor”) enquanto os dois criam padrões geométricos no palco com giros e saltos.

Ashton transforma um objeto bem cotidiano numa metáfora: por fora, o mundo (a mãe, o pretendente rico) que tenta separar o casal; por dentro, eles já estão emocionalmente interligados, então nada vai conseguir desfazer esse nó.

Tem ainda uma segunda camada nessa cena: o uso da fita remete ao Maypole, a Dança do Mastro das tradições folclóricas europeias, em que comunidades celebravam a fertilidade da primavera trançando fitas num tronco. Trazer esse elemento pro pas de deux reforça o caráter popular e camponês do ballet, bem longe da frieza aristocrática.

A dança dos tamancos

La Fille mal gardée / Ballet de l’Opéra national de Paris © Francette Levieux/ Opéra national de Paris

Essa é uma das grandes atrações cômicas do ballet, e acontece na cena do campo de trigo. Quem brilha aqui é a Viúva Simone (vale lembrar que ela é tradicionalmente dançada por um homem vestido de mulher, no estilo en travesti) usando pesados tamancos de madeira numa coreografia que mistura técnica de ballet com o sapateado folclórico inglês (o Lancashire clog dancing, uma homenagem de Ashton às próprias raízes britânicas).

Pra entender por que isso é tão significativo é legal pensar que, no ballet clássico tradicional, o auge da técnica feminina é subir nas pontas pra flutuar e esconder o peso do corpo. Aqui é exatamente o oposto: as bailarinas batem os pés com força no chão.

O tamanco simboliza a ligação com a terra, o trabalho no campo, a identidade da classe trabalhadora. E tem um efeito narrativo importante: a Viúva passa o ballet inteiro como uma figura rígida e obcecada por ascensão social através do casamento da filha. Quando ela se joga nessa dança e se diverte com as camponesas, essa rigidez se quebra.

As galinhas

Galinhas e galo em La Fille mal gardée. © Dave Morgan.

A abertura do espetáculo, logo depois da introdução musical, é literalmente um galo e quatro galinhas (bailarinos em figurinos cobertos de penas) fazendo bicadas no chão, sacudidas de asa e o andar característico de cabeça pra frente e pra trás. Pode parecer só um momento cômico, mas ele cumpre uma função clara: estabelece de cara o tom bucólico e realista da obra, quebrando qualquer expectativa de solenidade aristocrática já nos primeiros minutos.

E no Brasil?

Ana Pavlova como Lise

A primeira vez que vimos La Fille em terras brasileiras foi em 24 de julho de 1928, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro e olha só o elenco: Anna Pavlova em pessoa no papel de Lise, Pierre Vladimiroff como Colas e Violeta Fauchen como Simone. Foi uma versão compacta, de 1 ato e 2 cenas.

Mais de 235 anos depois da estreia em Bordeaux, La Fille Mal Gardée continua sendo um ballet sobre gente comum, amor jovem e a alegria de uma comunidade. E, sinceramente, acho que é exatamente por isso que ele nunca saiu de cena: porque, no fundo, é uma história que qualquer um de nós já viveu de algum jeito.

E aí, já conhecia toda essa história e seus bastidores?
Não esquece de me contar e sugerir outro ballet pra trazer por aqui 😊💖

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