Uma noite com O Lago dos Cisnes

04 de junho de 2026, aproximadamente às duas e meia da tarde.

Nosso grupo estava em direção a São Paulo para assistir um dos ballets mais tradicionais e emblemáticos que temos: O Lago dos Cisnes, com a produção e os bailarinos da São Paulo Companhia de Dança.

Claramente, um daqueles programas que enchem meu coração 🥰 💓

Quando as pessoas falam sobre a sensação de estar viva, para mim ela acontece em momentos assim: chegar ao teatro, seja para dançar ou para assistir, observar a movimentação das pessoas, as conversas silenciosas, o cheiro que se mistura ao das poltronas almofadadas. Existe uma energia muito particular nesses espaços, uma sensação que sempre me deixa nas nuvens.


Antes das cortinas se abrirem

Chegamos cedo e, por isso, acompanhamos a recepção do teatro ganhando vida aos poucos. O espaço foi se enchendo gradualmente, mas algo me chamou atenção: apesar do grande número de pessoas, tudo tinha uma certa tranquilidade, sabe?

Talvez pareça um detalhe bobo, mas é uma das coisas que mais gosto em ambientes assim. Há vida, movimento e encontros, mas sem gritos, sem excesso de barulho. As pessoas conversam, circulam e compartilham aquele momento de forma quase silenciosa. Às vezes parece até outra realidade.

Enquanto observávamos o movimento, percebemos que algumas pessoas já estavam entrando na plateia. Descobrimos então que aconteceria uma palestra antes da apresentação.

(PS: a informação já havia sido divulgada pela companhia nas redes sociais (errr, não tinha visto rs). Mas, por uma feliz falta de atenção da minha parte, eu não tinha visto nada sobre isso. E ainda bem).


A surpresa chamada Inês Bogéa

Subimos para nosso andar e fomos autorizados a entrar na sala cerca de quarenta minutos antes do início do espetáculo. Enquanto procurava meu lugar inocentemente, ouvi uma voz e senti uma presença que parecida conhecida:

“Pode sentar onde quiser por enquanto, nós só vamos conversar um pouco.”

Nem precisei me virar completamente.

Era Inês Bogéa (ahhhhhhhhhhhh).

Ela estava acompanhada por Milton Coatti, atual codiretor artístico da companhia, além dos bailarinos Nathan Fernandes e Carolina Pegurelli, que seriam os destaques da apresentação do dia seguinte.

Durante a conversa, eles falaram sobre a história de O Lago dos Cisnes, explicaram a adaptação criada pela companhia e apresentaram diversos elementos da pantomima que veríamos logo mais no palco.

Mas o que mais me marcou foi a paixão com que falavam sobre tudo aquilo. Não era apenas uma explicação técnica, sabe? Ali tinha amor pela arte transbordando em palavras.

Preciso reforçar que achei esse “pequeno” detalhe extremamente inteligente. Mais do que isso, vi nele um cuidado enorme com a formação de público e com a própria dança.

Ouvir aquelas pessoas tão de perto, compartilhando seu processo e sua visão artística, me encheu de orgulho e satisfação por estar ali. Por fazer parte, de alguma forma, desse universo.


O livro que apresentou a dança para mim

Talvez vocês não entendam imediatamente por que fiquei tão emocionada ao encontrar Inês Bogéa, então eu vou explicar 🙂

Quando comecei a dançar, eu não conhecia seu nome e nem seu trabalho. Naquela época, a internet ainda estava longe de ser o que é hoje e o acesso a referências da dança era muito mais limitado, tava tudo ainda começando, sabe?

Mas lá pelos meus onze anos, quando eu estava cada vez mais apaixonada pelo ballet, minha mãe comprou para mim um livro chamado O Livro da Dança, da Coleção Profissões, da Companhia das Letrinhas. Posso dizer sem exagero que aquele livro me apresentou o mundo da dança.

Foi através dele que tive meus primeiros contatos com nomes como Grupo Corpo, Márcia Haydée, Pina Bausch, Nijinsky, Isadora Duncan e tantas outras figuras fundamentais dessa história. O livro misturava biografias, informações históricas, trechos de obras importantes e também a trajetória da própria Inês, que antes da dança passou pela ginástica.

Na prática, ele virou meu dicionário.

Eu lia, pesquisava vídeos no YouTube – que estava praticamente começando a existir – procurava fotos, entrevistas e tudo o que pudesse encontrar sobre aqueles artistas e movimentos.

Ganhei esse livro em 2005. Três anos depois, Inês assumiria a direção da São Paulo Companhia de Dança. Desde então, sempre que ouvia falar dela ou da companhia, sentia uma espécie de familiaridade.

Por isso, vê-la ali, tão perto, contando a história do ballet quase como se estivesse dançando, foi algo profundamente simbólico para mim.

A postura, os gestos, a paixão que aparecia na voz.

Tudo aquilo me fez lembrar daquela menina que ainda descobria o universo da dança através das páginas de um livro.

Consegui falar com ela? Não (rs)

Fiquei tão paralisada pela admiração que não tive coragem de correr atrás dela para dizer o quanto seu trabalho foi importante para minha formação.

Mas consegui tirar foto com os bailarinos. E isso já tornou a experiência ainda mais especial.

Já falei desse livro no meu instagram.

Quando o palco finalmente se iluminou

Na apresentação que assistimos, os solistas foram Fernando Silva e Thamiris Prata. E como foi lindo! Preciso fazer um destaque especial para a Thamiris:

Que técnica!!!

Que limpeza!!!

Que suavidade!!!

Ela simplesmente não deu nenhuma “quicadinha”. Nenhuma.

As passagens eram limpas, as piruetas precisas e tudo parecia perfeitamente colocado. Aquela sensação rara de alguém que dança com absoluta segurança e naturalidade.

Quando crescer, quero ser assim (hehe)

O espetáculo também contou com a participação da São Paulo Companhia Jovem de Dança, enriquecendo ainda mais a produção.


Por que experiências assim importam

Ao final da noite, fiquei pensando em como momentos como esse são importantes para mim. Não apenas pelo espetáculo em si, mas por tudo o que existe ao redor dele.

As histórias, os encontros, os livros que nos formam, as pessoas que admiramos, as conversas antes da cortina abrir, as descobertas inesperadas.

Nada substitui a sensação de ver, ao vivo, o trabalho que amamos ganhando forma diante dos nossos olhos.

O Lago dos Cisnes foi apenas o motivo da viagem, mas o que trouxe comigo para casa foi muito maior, né? Porque me trouxe a lembrança de por que escolhi continuar nesse mundo. E de por que a dança continua sendo um dos lugares onde mais me sinto viva.


As apresentações aconteceram no Teatro Sérgio Cardoso, em São Paulo, entre os dias 4 e 7 de junho. A São Paulo Companhia de Dança segue em temporada com os espetáculos Indigo, Agora e O Som da Chuva entre os dias 11 e 14 de junho 🙂

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